sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

CAMINHO DA LUZ

Bem Aventurado ou Uma Aventura no Caminho da Luz...



Em novembro de 2012 estive no Caminho da Luz, uma rota de peregrinação entre a cidade de Tombos e o Pico da Bandeira, na Zona da Mata de Minas Gerais. Este trajeto, que compreende aproximados 230 km, é considerado o Caminho de Santiago Brasileiro, por isso, na Europa e em alguns lugares da Ásia é conhecido também como o Caminho do Brasil. Para fazer todo o percusso são necessários no mínimo 7 dias, uma mochila nem muito grande e nem muito pequena, um calçado apropriado, roupas leves e muita disposição.



A cadeira atrás da porta no hotel Serpa, um costume brasileiro para as localidades pacíficas
Convidei a amiga Athenais Vilhena, para seguir estrada comigo, cada um no seu rítimo, no seu horário, sem se preocupar em caminhar sempre juntos. Começamos a aventura na pequena Tombos, pernoitamos no antigo Hotel Serpa, um bela hospedagem que possui escadas caracol, azulejos hidraulicos e onde ainda colocam uma cadeira atras da porta no perido da noite, para manter a porta fechada, mas ao mesmo tempo aberta para os hóspedes que estão fora; e pela manhã conheçemos a bela cachoeira de Tombos, a quinta em altura do país; durante muitos anos, estas maravilhosas quedas foram responsáveis por gerar energia para partes importantes dos estados de Minas e Rio de Janeiro, Tombos, aliás, está bem na divisa dos dois estados.

Nesta cachoeira, atolei meus pés no barro, não gostei, troquei as meias, sequei o calçado, mal sabia eu o que viria pela frente. Pé no caminho...


Começa o caminho...


O primeiro dia foi desgastante, mas claro, que inesquecível. Vi uma fazenda enorme e linda, onde abasteci meu cantil com água fresca de pude descansar à sombra; o dia amanheceu chuvoso, mas a grande parte da manhã foi de muito sol e mormaço. Conhecemos dona Francisca, que mora em uma casinha bem simples, nos deu água e café e proseu um pouco, é dela a frase: "O peso da mochila é o peso que você carrega na vida", quando reclamei dos 6 Kg que estavam em minhas costas. Estava ávido para ver paisagens, as cachoeiras e chegar, ao final do dia, em um lugar bonito e aconchegante. Porém, a tarde foi chegando, junto com ela o sol forte na cabeça, o peso da mochila, o céu que agora ficava escuro, ameaçando uma tempestade.



Dona Francisca

Neste dia paramos para lanchar em um velho tronco de árvore, caído à beira do caminho e no alto de um morro, de onde podíamos avistar as pequenas estradinhas por onde havíamos passado. Pouco antes da chuva, paramos na casa da dona Anamir, que nos recebeu muito bem, com água, banana, café e uma prosa na varanda da cozinha, enquanto a água caia. Dona Anamir contou da rotina no campo, dos prazeres e alegrias de ser uma trabalhador rural, contou também da angústia que sente pela perda de um dos filhos gêmeos, o que era paralítico, se arrastava pelo chão frio e pegou pneumonia.


Dona Anamir

Continunamos a  subir e chuva aumentou e com ela o estresse, o medo de estar no meio do mato, no meio do nada. ao caminheiro é passado algumas orientações e um mapa, é um caminho muito bem sinalizado com setas amarelas nos currais, árvores, cercas, rochas, cosntruções, porém me perdi, não encontrava nenhuma seta em determinado ponto do pasto onde me encontrava, neste trecho não havia necessariamente um caminho de terra, pedra, uma trilha, o que seja, tinha que subir, mais ou menos uma lógica de direção e chegar a uma bela gruta santa.


A centenária fazenda entre Tombos e Catuné foi um lugar de glória no passado




A GRUTA DE NOSSA SENHORA DE LOURDES


E a gruta é linda, enorme, fria e com um altar muito simples. Na entrada tem uma escultura da santa abençoando uma mulher peregrina. Fiquei por quase uma hora nesta gruta, rezei, cantei, ouvi o eco de mina voz. Diz a história que a gruta aumenta de tamanho a cada momento, pode-se perceber isso por algumas pedrinhas e pela poira que caem de seu teto.



Esta gruta está a pouco kms de Catuné, distrito de Tombos, um lugar que à primeira vista me pareceu  feio e sem graça. Neste dia fiquei hospedado na casa de dona Neuza, uma espécie de albergue do caminheiro. o quarto ficava em um porão, era bem limpinho e muito simples, com paredes rebocadas, colchões e roupas de camas de qualdiade inferior as de minha casa. "Não há o que se fazer neste lugar, que belo passeio eu me meti, não há nem um trailler de sanduiche", resolvi então ir ao culto na Igreja de Santo Antônio, que fica em frente a casa que me hospedava. Na pressa da chegada, reparei que bem em frente a porta do quanto, havia o quintal, e ele estava cheio de lírios, uma plantação enorme deles.





A ORAÇÃO DOS BEM AVENTURADOS



Na igreja de Santo Antônio, levei meu terço, e estava bem cansado, com um  pouco de dores nos pés. Em igrejas como esta, distante da sede da matriz, é comum que os padres rezem a missa apenas uma vez por mês, deixando os demais dias para a própria comunidade desenvolver as lições dos evangelhos. Fui surpreendido por dois rapazes que abriram as orações com a oração dos Bem Aventurados. Acho esta oração belíssima e há muito não a escutava, naquele momento senti que começara o meu Caminho da Luz.


Interior da Igreja de Santo Antônio








SURPRESAS

Bem cedo segui caminho. A manhã está nublada e isso me angustia um pouco, pois pelas minhas informações, o caminho proporciona visões altas das montanhas, as nuvens estão carregadas, pode ser que chova. A casa da dona Neuza fica no alto do distrito, descendo a rua, cumprimentei uma cadelinha e ela então resolveu me seguir, pouco mais de 2km de caminhada a chuva, que era fina, engrossou; a cadelinha latiu e fez sinal que era para atrás do pequeno morro e árvores, fui e lá tinha um balneário desativado, a chuva apertou, começou a cair pedras de gelo, fiquei neste local, protegido, por uns 40 minutos. Athenais estava comigo e isso amenizou a situação, conversamos e interagimos com a cachorrinha, chegamos a pensar até que ela fosse um anjinho ou entidade qualquer, pois nos guiou muito bem.



A chuva cessou, colocamos a capa, e seguimos a estrada, a cachorrinha também, em uma bifurcação, havia um rapaz tocando uns bois do pequeno riacho, cheio devido as águas que caíram, perguntamos para qual lado seguir em direção à vila de Água Santa, ele riu e apontou o caminho, alertou que iríamos subir muito ainda. Ele disse conhecer a cadelinha, falou que era da dona da padaria de Catuné, que tinha uma propriedade pelas redondezas, o nome da pequenina é Diana.

Gosto muito de cantar e por muitas vezes fiz isso no caminho, sei muitas músicas decoradas, uma delas, cantei muitas no caminho, neste momento, quando começava a subir o Lombo do Burro, uma elevação, a segunda mais alta do caminho, perdendo apenas para a Montanha Sagrada, estava cantando Amor, dos Secos e Molhados, achei que a Athenais estava gostando de ouvir a letra e a melodia de tão estimada canção, porém ao olhar para trás, não a vi, perto de mim, apenas Diana. Segui o caminho, cada um no seu ritmo e pensamentos. Como é alto, como sobe. Chove pouco. Imagino que a paisagem deve ser linda, sem a neblina que encobre tudo, seria um pouco decepcionante, mas a cadelinha prende minha atenção, ela late para animais que se aproximam da estrada, deve ter muitos por estas bandas, afinal estou praticamente passando dentro de uma plantação de café enorme, em alguns trecho, a estrada virou um rio, e não é que a cadelinha me aponta os sinal, vai sempre na frente, olha pra trás, late, e eu vou na pista dela, não tem erro, pisar no local raso, e firme.



Após subir muito, comecei andar mais ou menos em uma estrada mais horizontal, chove e tem muita neblina, as vezes não vejo a mais de três metros a minha frente, outras vezes, os enormes eucaliptos, parecem segurar tantas nuvens, possibilitando uma visão mais aberta do lugar, segundo o mapa, é o Vale do Silêncio. Parece cenário de um filme do Jonny Deep, acho que a Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça. De repente, a chuva começa a engrossar, os trovões aumentam e posso ver ao longe no meio do céu cinza e nebuloso alguns raios, chove muito, a estrada começa a descer, parece um rio e agora esse rio não corta a estrada, e sim toda a água segue o mesmo percusso.


 A Cadelinha está ensopada, estou apegado a ela, penso até, no que fazer caso ela resolva me seguir todo o caminho, quanta chuva, me sinto forte, tenho uma fruta dentro da mochila, pouca água, acabou quase tudo no Lombo do Burro. Não vejo a hora de chegar em Água Santa.



E de repente, chegamos, a descida da estrada e a chuva aumentou a velocidade dos meus passos, quando vi, estava passando perto de uma cerca de bambu, em seguida uma lateral de igreja, contornei a construção e parei na varanda do pequeno templo dedicado a Nossa Senhora dos Homens. A chuva também dava sinal que ia diminuir, aproveitei para esperar a Athenais, secar minhas meias e bermuda, enfim, me organizar daquele temporal todo.



ÁGUA SANTA

A pequena Diana nos levou até as portas do antigo casarão que abriga a padaria Lazaroni. Quem nos atendeu foi o Ângelo, que logo nos deixou bem à vontade, disse-nos até que certa vez, um cachorrinho acompanhou duas caminheiras até o distrito também, ele falava e foi a última vez que vi a Diana, ela rodopeou bem na porta da padaria e subiu a ladeira novamente. A padaria é bem rústica e nos serviu um pão com mortadela bastante saboroso, o doce de leite também é especial e garantiu mais energia pára o restante da caminhada.


Antes porém desviamos do caminho para conhecer a água santa, que dá nome à localidade. Trata-se de um pequeno santuário com uma grande rocha com uma pequena fenda de onde mina uma água fria e cristalina. Diz a história popular que a água tem o poder da cura, por isso fiz minhas orações e pedi muita saúde. Retornamos à padaria, onde o Ângelo guardou nossas mochilas, para que pudéssemos subir o morro que leva até o santuário com mais facilidade.



Ao sair de Água Santa vimos uma cena que creio será inesquecível. Uma pequena casa, com uma pequena varanda, ao lado de uma grande cachoeira, ainda dentro da rua principal. Nesta casa, havia um som feito com violão e creio um sanfona, e acho que uns dez a doze homens, eles estavam felizes, cantavam alto a música Não Chores Mais, versão de Gilberto Gil para o clássico de Bob Marley. Eles comemoravam a colheita e naquele momento esperavam a chuva passar para voltar ao trabalho.



Começamos a subir novamente, e subimos muito, acabamos por nos distanciar novamente. O destino agora é a cidade de Pedra Dourada. No meio do caminho vi uma cachoeira muito bonita, e não resiti, parei a caminhada e fui tomar um banho naquelas águas que me refrescaram tanto. Fiz um desenho para Athenais na estrada, assim ela saberia que eu estava bem ao lado e poderia parar também para descansar e se refrescar.


O final da tarde estava muito bonito, com sol e céu azul. A estrada é alta, podemos avistar belas construções rurais e ao longe a pedra dourada, que dá nome a pequena cidade. Precisamos procurar o Chalé do Paulo. Pedra Dourada é bonita, limpa, temuma praça linda e uma igreja em estilo gótico fantástica, na frente dessa igreja fica uma estátua de São José abençoando o peregrino negro.





Quando encontramos o Chalé já quase anoitecia e me lembro bem de como fomos bem recebidos pela Rosângela e pelo Paulo, a pousada é bonita, espaçosa, o quarto grande, confortável. Tomei um banho, descansei um pouco e desci para jantar. Enquanto conversávamos, em uma cozinha enorme, Rosângela preparava o jantar. Arroz branco, feijão (que não gosto nunca), salada de alface e tomate cereja, farinha torrada, carne cozida, macarrão com tempero divino, creio que está é a melhor comida que já comi, não me lembro de um restaurante, familiar ou amigo que fizesse algo tão gostoso. Coisa de lamber os lábios.



Paulo nos contou dos caminheiros que passam por ali, mostrou o cadernos que as pessoas anotam endereços e recados, nos disse que pelo caminho passam muitos estrangeiros, até orientais.



Dentro da pousada há um templo da igreja Batista, onde orei logo pela manhã, abri justamente na parte que tem um versículo muito famoso: "Olhai os lírios do campo, eles não fiam , não tecem e possuem as vestes mais belas que a do rei Salomão", lindo. Pensei na hora no quintal de lírios que vi na noite anterior na casa de dona Neuza.




PARA FARIA LEMOS



Após o café da manhã e mais um bate papo com o Paulo e a Rosângela, foi hora de colocar as mochilas nas costas e partir, o casal nos levou até o jardim da grande casa, eu gostei muito de estar perto deles, são pessoas especiais e cheias de energias boas. Evitei olhar para trás, pois meus olhos se encheram de lágrimas, despedir não é meu forte, de pessoas legais e momentos especiais, então... Mas segui caminho.



O dia promete. No guia que ganhei ainda em Tombos, diz que as mais belas cachoeiras estão neste trecho, tem também a Pedra do Lagarto, um lugar que dizem ter uma energia especial, quero parar e rezar em cima dela. Tem ainda um outro fatos, o céu está azul, o sol brilhando, o que combina demais com as cachoeiras, não é mesmo?



Bom, ao sair de Pedra Dourada sobe-se um morro enorme, mas tranquilo, acho que já estou bem condicionado fisicamente. Na verdade esse morro contorna a pedra dourada, é muito bonito, uma vegetação exuberante, muitas bromélias. E a tal Pedra do Lagarto não chega nunca, em um momento, após a subida do morro, meu passo ficou mais forte e a distância entre eu e Athenais aumentou. Comecei a descer dentro de um cafezal, o sol estava forte e não via a hora de parar na primeira cachoeira, mas pelo gui eu teria que ver a Pedra do Lagarto, e não a vi, passei por duas cachoeiras enormes, uma eu via da estrada, bastava eu descer um atalho e andar uns 500 metros aproximadamente, dez minutos depois uma bem ao lado da estrada, dessa eu sentia até o frescor de algumas partículas d'água que vinham trazidas pelo vento, uma sensação refrescante, deliciosa. Mas como eu ainda não tinha passado pela pedra do lagarto, não parei em nenhuma, as indicadas no guia ainda viriam. Bem ao lado da cachoeira uma seta amarela indicava que era para subir, e subi, subi muito, no alto vi um vale lindo, o céu estava claro e vi que ia descer muito.

Mais tarde, percebi que havia passado pela Pedra do Lagarto, porém não a percebi, e a partir daquele momento resolvi que não ia dar muita atenção ao guia mais, as cachoeiras ou a falta de ter entrado na água em uma delas me deixaram frustado. Mas procurei observar outros fatores, foi o dia que mais ouvi passarinhos, muito mesmo.



Chegando em Faria Lemos parei para descansar e esperar a Athenais, sentei em um muro de pedra, debaixo de um lindo Flamboyant, aproveitei e comi minha banana e tomei muita água. A Athenais chegou logo em seguida, a primeira coisa que ela falou foi: "Nossa, ô vontade de entrar naquela cachoeira!".







Ao chegar no asfalto, uma placa indicava Faria Lemos a 4km, de um lado da estrada tinha uma fábrica de laticínios e do outro uma bica d'água enorme, aliás, duas bicas d'água, bom, tivemos que parar e nos refrescar, foi bom demais. Lá fizemos um amigo, um cão todo peludo, lindo, ele se aproximou, ficou na beira do lago onde caiam as bicas, mesmo quando sentamos para nos secar, ele continuou perto, parece que ficou mais próximo da Athenais, e foi conosco até a primeira rua de Faria Lemos. Detalha: Haviam outras bicas neste trecho e ele latia e nos indicava todas. Neste trecho de asfalto, haviam grandes placas de distância em distância, em cada uma um dos dez mandamentos.


FARIA LEMOS

Fária Lemos é uma cidade arquitetonicamente muito rica, essa foi a primeira impressão que tive, as casa são antigas, devem datar de 1950 a 1970, não sei, não deve haver lei de patrimônio no lugar, mas pelo menos na região central, os prédios parecem permanecer no passado, salvo uma alteração ou outra em uma janela ou telhado, pouca coisa. Paramos na primeira padaria que vimos, bem simples, e fizemos aquele almoço, isso já devia ser umas duas da tarde, achei o percusso de asfalto longo, parecia que não ia acabar, comi um pão com mortadela e tomei um guaraná, delícia demais, de sobremesa um rocambole enorme, que levei metade pra comer mais tarde.



Hoje fiquei hospedado em um hotel, o quarto é bem aconchegante e o banheiro é ótimo. Queimei minha pele hoje, devido ao sol, estou até um pouco ardido. Tomei um banho e deitei um pouco. Mas não resisit À curiosidade de ver um pouco mais da cidade, a igreja de São Matheus e a estátua que fica na escadaria do templo. A cidade é antiga mesmo, a igreja é linda, estava fechado e fu rezar na gruta ao lado, onde tem uma imagem pitoresca de Nossa Senhora.



Quando desci as escadas para a rua, três mulheres sentadas em um banco interagiram comigo, me informei sobre outro caminho para chegar até o hotel. Elas me informaram que às sete da noite terá culto do jovens. Simpáticas. No hotel, molhei o corpo na água fria novamente e deitei, dormi um pouco.

Ao acordar, fui ao quarto da Athenais e a convidei para ir até a igreja, fomos devagar pela cidade, ela também acho a estátua bonita. Aliás, eu achei a estátua de São Matheus muito bonita, é um homem bonito. Nesta estátua ele mostra o evangelho ao menino negro. A igreja estava fechada, o culto já acontecia em um salão lateral. Fizemos uma oração aos pés da estátua, ficamos lá um tempo, a igreja fica em um ponto mais alto da cidade, o clima estava fresco, pois enquanto dormia, caiu uma chuva forte, escutei o barulho, foi ótimo e relaxante, uma hora até levantei e cheguei à janela do quarto  de onde via os telhados do centro da cidade sumirem no branco da baixa nuvem.



Estávamos famintos por uma comida mais forte, carne, massa, sei lá. A cidade não tem restaurantes, pouco comércio aberto a noite, apenas uns bares. Uma menina nos indicou uma lanchonete que fica na praça, próximo, ao hotel. O local parece um bar nos anos 60, pedimos um lanche, sanduiche, um bacon burguer e guaraná. Uau, o bacon é bacon mesmo, nada industrializado, parece bem um sanduiche caseiro. De repente, chegou um rapaz falando alto, não entendia bem as palavras, todo ensanguentado, a princípio pensei em teatro, em uma oficina de maquiagem que vi no Instituto onde trabalho, certa vez, o pessoal lá reproduz
feridas na pele e sangue que parece mesmo de verdade, acho que estava exageradamente envolvido pela paz, era um rapaz ensanguentado mesmo, ele próprio havia se cortado com uam faca que agora ele segurava nas mãos. As pessoas que estavam no bar continuaram se comportando normalmente, até que um dos atendentes do bar pediu pra ele se retirar e assim o fez, depois ouvi a conversa entre dois homens que stavam nos banco do balcão, parece que o sujeito apronta essas coisas com frequência, imagina... Como eu eu cheguei a pensar em teatro? Num lugar que não tem a mínima característica de tal arte acontecer atualmente, que foi pouco tocado pela industrialização e comércio, como teria maquiadores com tal nível profissional?

Bom! Fiquei até tarde no quarto da Athenais, conversamos e rimos muito, Muitos assuntos, uns dos caminho, outro de outras aventuras que já passamos, da nossa cidade, familiares, lugares.


A arquitetura me chamou atenção, achei acolhedora, me levou a  tempos de infância em Raul Soares e São Pedro dos Ferros, onde minha avó Juracy morava. Nesta foto, a mulher do meio parece com minha mãe, não havia percebido, mas quando uma de minhas irmãs viu a foto na rede social, disse ter levado um susto.




O CAMINHO PARA CARANGOLA

Acordei cedo para recolher as roupas que haviamos lavado na tarde anterior ao chegar no hotel, tinhamos que fazer isso antes do café da manhã, pois o lugar para ambos era o mesmo, muito limpinho, com uma visão por cima da cidade, por se tratar de um terraço coberto. A dona desse hotel é sorridente, mas não se interege muito, não perguntou, nem demonstrou interesse por nada do Caminho, esse é o mesmo sentimento que tenho em relação à cidade toda, ressalvo a estátua de São Matheus e dois senhores, um que deu informação sobre o hotel, quando em nossa chegada e nos convidou para uma prosa, outro na saída da cidade que viu nossas camisas com a seta amarela, o cajado e perguntou algo pra Athenais e disse que era capaz de chover.



Esse povo do interior não se engana, logo cedo já sabem a previsão do tempo. Achei o caminho monótono, lembro ainda cedo, de um rio largo e bonito, mas ameaçado por uma pedreira, extração, sei lá, essa empresa fica bem na beira e deixa bem morta avegetação em volta, além de deformar o rio com as explosões. Mais adiante tem uma casa bem perto desse curso 'água, é uma casa linda, parece os anos 70, tem detalhes divertidos, jardim, varanda e até um deque que a interage ainda mais com a beleza desse trecho do rio, creio que é o rio Carangola. Da área da casa dá pra ver a ponte Paris, onde tem uma seta amarela. Seguimos.



E seguimos e nada, um mormaço quase insurpotável, começa a chover fino, é necessário colocar a capa e a sensação de calor ficar insuportável, é melhor se molhar, tirar a capa. O rio sai de nossa visão, mas outros cursos 'água aparecem, algumas pequenas quedas, fazendinhas, e é muita subida, parece que fiquei umas trÊs horas só subindo. Lá no alto vê ao longe Faria Lemos, alías, vê o morro mais alto da cidade e a estátua branca de um Cristo, o sol se firma, o céu fica azul. Esperei a Athenais e começamos então a descer.

Não há muitas referências no mapa, apenas uma fazenda e um rio que seguirá lado a lado com o caminho por uns bons quilômetros. Tô achando sem graça o caminho, alguns lugares tem tanta lama na estrada...




O CAJADO

Estou muito habilidoso com o cajado. É mesmo a terceira perna do caminheiro. A gente brinca às vezes que somos dois personagens do clássico desenho animado Caverna do Dragão, ameaço até uns malabarismos. Muitas vezes me sinto meio Cristo, coloco  o cajado sobre os ombros passando por detrás do pescoço e jogo meus braços. A comparação com Cristo é só mesmo a posição dos braços. Mas ao lembrá-lo reflito sobre sua existência e ideiais.


CARANGOLA

Chegamos bem cedo em Carangola, por volta das onze horas da manhã já estávamos em perímetro urbano. Temos que desviar uns dois quilômetros do caminho para chegar na cidade propriamente dita. Sempre ouvi falar de Carangola, é uma cidade universitária, antiga, que já teve seu período áureo nos anos 20 do século passado. Chegamos ns cidade em horário de movimento grande, as ruas, lotadas de estudantes de todas as idades, uns viam da escola, outros iam. Athenais observou que todas as escolas possuem prédios bonitos, realmente. Andamos, andamos por uma rua comprida, parecia que não chegávamos nunca no centro, o hotel fica bem na área central, alías chama-se Hotel Central.



E que hotel, enorme, grande, lindo. Deve ter sido um local muito chique no passado, hoje um hotel de duas, ou três estrelas, não sei. Mas a beleza da arquitetura, dos móveis, ornamentos é indiscutível. Como estava cansado, tomei um banho e dormi. Ao acordar, umas 4 da tarde, saímos para fazer um lanche. A cidade tem muitas lanchonetes, todas muito legais, com sucos, vitaminas, frutas, paes, doces e tudo mais. Descemos o calcação, onde fica o hotel, e de cara puxei o braço da Athenais para um ambiente meio lanchonete, meio livraria. É o Café Mixirica.



Pedimos capuccino e pão de queijo, vieram os forros de mesa com as imagens de Brad Pitt e Brigitte Bardot, olhamos um para o outro, já nos conhecemos bem ao ponto de saber que entramos no lugar certo, por sorte e gostamos. A garçonete nos avisou que o estabelecimento funciona a noite e que teria apresentação de músicos locais por volta das 21 horas. É lógico que a gente vai.



Depois continuamos a descer a rua, em direção a estátua de Santa Luzia, que tem bem na entrada da igreja de mesmo nome na praça principal da cidade. Mas vimos o Albino Neves em uma padaria, não resisti e o chamei para falar que estava fazendo o caminho.

ALBINO NEVES

O Albino juntamento com uns amigos idealizou o Caminho da Luz.  Ouvi falar dele nas reportagens e meu amigo, que também é meu chefe, o Marcelo, me falou dele um pouco. No primeiro dia de caminhada, na chuvarada que peguei no meio do nada, quando me perdi do caminho, xingava alto até a quinta geração desse cara, achei uma loucura, uma venda de informações totalmente erradas, cheguei a pensar em desitir de trilhar tal percusso. Mas era só mesmo o estresse. Ele viu algumas fotos que tirei, elogiou meu olhar. Eu disse que não havia gostado do trajeto de hoje, que não vi nada interessante, e  fiquei meio sem graça com a resposta dele: "- Como não?".



Bom! Foi bacana, ele nos disse que íamos adorar o próximo percusso. De noite queria encontrar conosco, ms como é Cavalheiro Templário já tinha um compromisso com os irmãos da ordem naquela quarta-feira.


PINK FLOYD, THE BEATHES E MUITO LED ZEPPELIN

O som que rolou no Mexirirca é ótimo, o ambiente estava cheio de pessoas bonitas, interessantes, conversas agradáveis. Boa comida, boa música e boa bebida. Devorei jarras e jarras de suco de laranja.
Conhecemos muitas pessoas, pois sentamos em uma mesa bem central, bem em frente aos músicos. Foi uma noite alucinante...



Na madrugada, já no hotel, ainda ficamos um bom tempo, debruçados no enorme parapeito da janela, parece que estamos no passado, a cidade ficou vazia e silenciosa, pelo menos naquela região.


Na escrivaninha do hotel, tinha um novo testamento. Logo de tarde, quando deitei um pouco, peguei com a intenção de procurar o evangelho de São Matheus.  Às vezes penso em escrever uma peça baseada nesse evangelho, uma espécie de Gospel, a Esperança, mas nem sequer sei do que trata. Logo de cara fiquei surpreso, pois é o primeiro evangelho. Comecei a ler, e de repente estava lendo a oração dos Bem Aventurados, então esse é um trecho do evangelho de Matheus... Mais adiante li o trecho dos lírios do campo: " Olhai os lírios do campo, eles não tecem, não fiam, mas possuem as vestes mais belas que a de Salomão", eu vi os lírios dias atrás, na casa da dona Neuza, que acalmaram minha aflição naquele dia, depois da caminhada, ela, a dona Neuza, antes de irmos para a igreja, foi ao quintal e cortou algumas flores para enfeitar o altar.

Depois do café da manhã, pedi o novo testamento na recepção, o rapaz nem pensou muito: "Tenho um novo para você, as editoras nos mandam às vezes, para os quartos". Ele nos sugeriu que pegássemos um taxi até um ponto fora da cidade, onde começava o caminho de novo. E assim foi deito, compramos um sanduiche natural em uma lanchonete e pegamos um taxi, o motorista chama-se Vanderlei, gente fina, foi conversando conosco, cheio de empolgação, perguntando sobre o caminho, nos deixou o contato para caso de qualquer emergência no dia.



O CAMINHO DE ERNESTINA...

O mais belo trecho, na minha opinião. Parece que estava dentro do filme da Alice no País das Maravilhas Esse é um trecho para quem gosta de assuntos exotéricos, místicos, para quem acredita em fadas e bruxas, duendes e em Santa Clara de Assis.



O início da manhã foi de chuva fina. Paramos em uma estação de ferro desativada, estava toda cheia de bosta de boi, tinha uma casinha em ruínas, mas o mato e os destroços se acumulavam dentro. Ficamos onde então seria a plataforma de embarque, tinha um cacho de bananas, do nada, estavam no ponto para comer, e assim foi feito. Esperamos a chuva passar, a essa hora caia fina mas em maior quantidade.

A chuva acabou e seguimos então a seta amarela. O local de referência que guardei era a fonte de Santa Clara, porque é minha santa protetora, e quando pesquisa em casa sobre o caminho, pensei que tinha que trazê-la, sempre levo um santinho comigo em qualquer viagem. Bom! Mas fomos andando, parece que o caminho era no passado o local por onde os trilhos do trem passavam, de um lado às vezes tem um morro verde íngrime ou um paredão de pedras, não dá pra ver o topo, pois há serração no alto; do outro lado uma cadeia de montanhas, pra baixo um desfiladeiro, por vezes um penhasco.



A árvore que fala.
Ao virar um pequena curva tinha uma árvore velha. A Athenais disse que ela falava, eu sugeri abraçá-la, então, além que faz bem abraçar uma árvore com força. Tem muitos passarinhos, o canto deles fica cade vez mais alto, e estamos andando ha um tempo nesse trecho, creio que se não fosse a chuva teria muitas flores, bromélias tem um paredão delas, as árvores foram fechando o caminho, quando vi estava dentro de uma nave, como um templo, a vegetação cresceu de tal forma que parecia até uma caverna ou grande cabana, a sinfonia dos pássaros era muito alta, me deu uma sensação de euforia, fiz até uma oração e comecei a andar com mais pressa, em direção a fonte, estava curioso.

A FONTE DE SANTA CLARA

É o lugar de maior paz que estive, depois do útero da minha mãe, creio. A medida que fui me aproximando do local a sinfonia foi diminuindo, ficando apenas discretos colibris e borboletas, o barulhinho da água caindo... É a fonte de Santa Clara!



Rezei, cantei a música de Santa Clara, benzi minha santinha naquelas águas tão claras e puras, descansei um pouco. Em um lugar que se sente a paz tão profundamente, nada ha mais para fazer, a não ser deitar e ouvir o vento, a água...



Santa Clara estava lá, eu sentia, e era uma sensação alegre, emocionante, de encher os olhos de água. Ela me tranquilizou a seguir a vida.



ERNESTINA

E chega-se às ruínas da Estação de Ernestina, dizem que no passado era um lugar especial, onde o trem parava e as crianças ficam fascinadas com as guloseimas e até os adultos.



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